review dos contos do Conan

há alguns meses comecei a me meter com RPG e, depois de ver tanta gente do meio elogiando os contos do Conan o Bárbaro, decidi pegar os originais pra dar uma lida. minha expectativa era encontrar contos genéricos de aventura altamente sexistas e racistas, mas me surpreendi ao descobrir que não são todos assim: alguns são genuinamente criativos e moralmente tragáveis. minhas opiniões sobre cada um:

1. The Phoenix on the Sword

4/5

ótimo conto!! foi o que me convenceu a ler o resto do livro. adorei ver o Conan sendo introduzido no meio da narrativa e de uma perspectiva de terceira pessoa, é algo que eu não esperava, meio cinematográfico até -- parece que as histórias não são "do Conan" mas sim "historias de segunda mão contadas e aumentadas por pessoas que conheceram o Conan em algum momento". adoro o nome "Ascalante"

2. The Frost Giant's Daughter

1/5

um banho de água fria depois do primeiro; é o menor conto do livro e ainda assim consegue a proeza de ser um dos mais problemáticos, considerando que a história se resume a "Conan viu uma mulher bonita no meio da neve e começa a perseguí-la para estuprá-la". a mulher no caso é a filha de Ymir, o Gigante de Gelo, e "sobrenaturalmente bela" (portanto Conan poderia estar "enfitiçado"), mas essa não cola pra mim não

é o pior conto do livro de longe, e botar ele como o segundo da coletânea é uma decisão bem curiosa, mas que eu entendo e até admiro. ele acaba servindo como uma tela de confirmação: "você tem certeza de que quer ler essa merda?" -- se você lê The Frost Giant's Daughter e decide continuar, então nada mais nesse livro vai te abalar, porque felizmente o Conan dos outros contos não apresenta nenhum comportamento remotamente similar ao que ele apresenta aqui, muito pelo contrário.

3. God in the Bowl

5/5

esse é um dos melhores contos do livro pra mim, e é absurdo que ele venha logo depois do pior. é uma montanha russa essa porra

a história é a seguinte: um guarda de museu ouve um barulho na calada da noite, e encontra o cadáver estrangulado de seu chefe ao lado de um bárbaro brutamontes (Conan). a policia é chamada, e o enredo se desenrola como um murder mystery no qual Conan é o principal suspeito. como ele vai se defender das acusaçõees, encontrar o real culpado, e ainda assim manter sob segredo o motivo real pelo qual ele estava no museu?

pelo que vi na internet tem muita gente que não gosta desse conto, mas eu pessoalmente adorei: quando comecei a ler Conan achei que todas as historias fossem ser contos genéricos de aventura, mas aí você lê um troço desses e pensa: poxa, talvez eu esteja enganado...

4. The Tower of the Elephant

3/5

um queridinho do público, mas honestamente achei meio medíocre. Conan decide assaltar a torre de um feiticeiro pra roubar uma joia rara, e ao longo do caminho enfrenta diversos perigos; a história culmina com o encontro entre Conan e um homem com cabeça de elefante que revela 1) ser um alienígena, 2) ter ensinado a magia para o dono da torre, e 3) que quer morrer mas não consegue. o fato dele ser um alienígena com cabeça de elefante é talvez um dos pontos mais interessantes de uma história que, fora isso, é bem padrão e genérica

tem uma coisa que acontece nesse conto (não lembro se aconteceu nos contos anteriores) que eu gosto muito, que é quando o Robert E. Howard introduz um personagem como sendo o rei da cocada preta, e 5 minutos depois o cara tá sendo triturado. aqui é a vez do ladrão "Taurus of Nemedia", que Conan encontra logo na entrada da torre e imediatamente reconhece como sendo um gatuno extremamente famoso, o "Príncipe dos Ladrões"...

...e 4 páginas depois, o cara toma one-hit kill da aranha do minecraft:

Springing back, sword high, he saw the horror strike the floor, wheel and scuttle toward him with appalling speed—a gigantic black spider, such as men see only in nightmare dreams. It was as large as a pig, and its eight thick hairy legs drove its ogreish body over the floor at headlong pace; [...] This was the killer that had dropped from its perch in the middle of the ceiling on a strand of its web, on the neck of the Nemedian.

acho isso muito engraçado e extremamente RPG

5. The Scarlet Citadel

5/5

pra mim, o melhor conto do livro. um pouco mais longo que os demais, mas tem de tudo: personagens secundários fazendo planos mirabolantes pra atrapalhar o Conan (e falhando), dungeoncrawling numa masmorra super imaginativa e intrigante (a titular Cidadela Escarlate), conexões com outros contos do livro (Tsotha-lanthi é o mesmo mago de The Phoenix on the Sword), freaky little guys (Feiticeiro Maluco Pelias), etc. no conjunto de contos tradicionais de aventura com espadas e feitiços, nunca li nada melhor do que isso aqui.

parte do que me atrai são os vários detalhes totalmente inesperados. exemplo: o feiticeiro Pelias não está apenas aprisionado na masmorra, ele está sendo estrangulado eternamente por vinhas e uma flor branca desabrocha na sua boca, calando-o à força. por que vinhas? por que uma flor? sei lá! porque o REH achou que era maneiro e é isso aí. quando Conan salva o feiticeiro e precisa de ajuda pra ir do Rio de Janeiro a Niterói super-rápido, o feiticeiro teleporta ele? não, ele invoca uma porra dum bicho morcego estranho pro Conan montar:

Conan heard a sudden beat of wings in the stars, and recoiled as a huge bat-like creature alighted beside him. He saw its great calm eyes regarding him in the starlight; he saw the forty-foot spread of its giant wings. And he saw it was neither bat nor bird. "Mount and ride," said Pelias. "By dawn it will bring you to Tamar."

é a mesma coisa do ET com cabeça de elefante do Tower of the Elephant... seria muito fácil botar o feiticeiro algemado, botar o Conan pra voar num pégaso, ou teleportar ele com um cristal mágico... mas não, são coisas meio inesperadas, tipo o alienígena ter CABEÇA DE ELEFANTE (existem elefantes normais no mundo do Conan?? ou serão todos alienígenas?? perguntas). é esse tipo de detalhe inexplicado que, pra mim, perdura na memória mesmo depois de todos os nomes e arcos narrativos serem erodidos pela passagem do tempo. "putz, esse conto aí é o do cara com cabeça de elefante, né?". é disso que eu me alimento

7. Queen of the Black Coast

2/5

uma beeeela bosta. Conan entra de gaiato num navio que, para seu azar, é atacado por piratas "com pele de ébano" que são comandados por uma gostosa seminua chamada Bêlit, com "membros de marfim" e "vestindo apenas um cinto de seda". Bêlit é a titular rainha da costa negra, famosa por sua ferocidade e violência -- características comprovadas pelo fato de que seus piratas matam todos os tripulantes do barco de Conan... EXCETO Conan, que consegue se defender e imediatamente conquista o coração da bambambã com seus poderosos bíceps

"You are no soft Hyborian!" she exclaimed. "You are fierce and hard as a gray wolf. Those eyes were never dimmed by city lights; those thews were never softened by life amid marble walls."

"I am Conan, a Cimmerian," he answered.

[...]. With the unerring instinct of the elemental feminine, she knew she had found her lover, and his race meant naught, save as it invested him with the glamor of far lands.

"And I am Bêlit," she cried, as one might say, "I am queen."

"Look at me, Conan!" She threw wide her arms. "I am Bêlit, queen of the black coast. Oh, tiger of the North, you are cold as the snowy mountains which bred you. Take me and crush me with your fierce love! Go with me to the ends of the earth and the ends of the sea! I am a queen by fire and steel and slaughter — be thou my king!"

daí pra frente o conto não melhora muito: Conan se torna um famoso pirata ao lado de Bêlit, e após um timeskip, eles se dirigem a um templo abandonado no meio da selva em busca de tesouro. infelizmente no processo todo mundo morre devido a homens-morcego malucos, Conan sobrevive sozinho (como de praxe), e o conto acaba. as descrições da expedição são inspiradas e imaginativas, mas não compensam o início absurdo ou as decisões estapafúrdias que Conan e cia. tomam ao longo da expedição...

em resumo, o conto começa como um filme pornô e termina como um episódio de scooby doo. e infelizmente não é nem um bom episódio

8. Black Colossus

2/5

se o começo do conto anterior te pareceu absurdo, se liga em como esse aqui começa: Thugra Kotan, um feiticeiro maligno dos tempos ancestrais, desperta de seu sono de 3.000 anos e começa a reunir as tribos do deserto com o objetivo de dominar o mundo, começando pelo país vizinho de Khoraja. a princesa de Khoraja, uma "gostosa com membros de marfim", se desespera e pede que a deusa Mitra lhe guie. a resposta da deusa é:

"Speak not, my daughter, for I know your need," came the intonations like deep musical waves beating rhythmically along a golden beach. "In one manner may you save your kingdom, and saving it, save all the world from the fangs of the serpent which has crawled up out of the darkness of the ages. Go forth upon the streets alone, and place your kingdom in the hands of the first man you meet there."

i.e. literalmente: entregue seu reino na mão do primeiro homem que você vir andando na rua. evidentemente após assinar esse atestado de incompetência, a princesa abre a porta da rua, e dá de cara quase que imediatamente com... Conan. não apenas ela o torna comandante militar das tropas do reino, mas como de praxe, fica com vontade de dar pra ele logo de imediato

From the corner of her eye she watched him as they went down the street together. His mail could not conceal his hard lines of tigerish strength. Everything about him was tigerish, elemental, untamed. He was alien as the jungle to her in his difference from the debonair courtiers to whom she was accustomed. She feared him, told herself she loathed his raw brute strength and unashamed barbarism, yet something breathless and perilous inside her leaned toward him; the hidden primitive chord that lurks in every woman's soul was sounded and responded.

é difícil não rolar os olhos enquanto lê coisas do tipo pela terceira, quarta, quinta vez; foi mais ou menos aqui que o livro começou a me perder.

o resto da historia é meio qualquer coisa. o feiticeiro descobre a existencia da princesa e envia projeções astrais pra avisá-la de que ele está chegando para se apossar de seu "belo corpo"; Conan afugenta a aparição e começa a reorganizar os exércitos pra uma batalha decisiva. durante a batalha, Conan mata o feiticeiro e transa com a princesa. fim.

9. Iron Shadows in the Moon

1/5

chato. a história não tem direção alguma, é uma série de acontecimentos previsíveis e genéricos: Conan encontra uma escrava fugindo de seu mestre e a resgata; ambos fogem pra uma ilha deserta; na ilha são atacados por gorilas gigantes; encontram um templo com diversas estátuas de metal; a mulher sonha que as estátuas são seres de uma "raça de humanoides de pele escura" que ganham vida à luz da lua; chegam outras pessoas na ilha que são mortas pelas estátuas; Conan e a mulher fogem. fim. textbook case de "and then" ao invés de "but therefore"

10. Xuthal of the Dusk

3/5

medíocre, mas criativo o suficiente pra manter a atenção. Conan e gostosa nº 83 chegam na cidade abandonada de Xuthal, onde vive uma população magicamente adormecida que está sendo lentamente devorada por um ser lovecraftiano tenebroso que eles veneram como um deus. se Arkham Horror é "vamos matar seres indescritíveis de outra dimensão... com metralhadoras", então esse conto aqui é a versão medieval disso. o conceito da cidade e a descrição do local são o que elevam esse aqui pra mim, consigo imaginar perfeitamente uma aventura de RPG se passando em Xuthal

11. The Pool of the Black One

1/5

outra história sobre Conan e uma gostosa aleatória sendo atacados por monstros "de pele negra" num ambiente inóspito........ vai tomar no cu não consegui terminar

12. Rogues in the House

3/5

gosto bastante da primeira metade do conto (com Conan sendo resgatado das masmorras pra fazer o trabalho sujo de um nobre), mas ele se perde um pouco na segunda metade ("ah aquele sentado no trono? é apenas o meu GORILA SUPER-INTELIGENTE que eu cuido desde que é criança"). a mansão mágica do Nabonidus tinha tudo pra ser interessante, mas suas descrições não deixaram nenhuma marca na minha memória... tem uma história melhor aqui, eu só não li

13. The Vale of Lost Women

2/5

de novo uma gostosa civilizada em meio a selvagens de pele negra, de novo Conan salvando ela com sua força e coragem. o diferencial desse conto é que a mulher nunca se apaixona pelo Conan, muito pelo contrário: depois de ser salva por ele, ela fica com medo do bárbaro e foge pro meio do mato (CAVALGANDO PELADA!!) até encontrar o titular Vale das Mulheres Perdidas, onde ela pretende se esconder em meio a uma tribo de "jovens mulheres de uma estranha raça de pele marrom" que supostamente viver por ali. só que tais mulheres não são o refúgio que ela esperava: elas a enfeitiçam com um beijo e arrastam seu corpo anestesiado a uma grande pedra, ao redor da qual começam a entoar cânticos. imediatamente, desce das estrelas uma estranha entidade que "possui forma de morcego, mas corpo e rosto que não se pareciam com nada que existe no mar, na terra ou no ar", um ser lovecraftiano que é afugentado -- novamente -- pelo corajoso Conan, que salva a mulher pela segunda vez, encerrando o conto.

honestamente a primeira metade é meio qualquer coisa, mas a segunda é bizarra o suficiente pra conseguir minha admiração

14. The Devil in Iron

1/5

selva, gostosas, cidades começando com X repletas de pessoas adormecidas... nada de novo nesse conto, exceto o aceno explícito a Lovecraft com a inclusão de uma cidade chamada literalmente Dagon. a melhor parte do conto pra mim tá logo no início, quando o vizir e o lorde not-árabe tentam inventar um plano pra se livrar do Conan e abusam do fato de que ele não consegue resistir a um rabo de saia. fora isso, totalmente passável