eu não vou ler seu texto se ele tiver um travessão
vamos supôr que você acaba de se tornar um gerente (parabéns! e sinto muito). você precisa saber o andamento de algumas métricas da operação, então decide pedir a um de seus funcionários pra fazer um relatório. passam-se alguns dias, e ele te entrega um PDF. e a pergunta que te faço é: como você se certifica de que o relatório está correto, sem re-fazer tudo o que ele fez?
obviamente é uma pergunta meio vaga que só pode receber respostas meio vagas, mas acompanhem meu pensamento: a primeira coisa que você vai fazer é conferir os resultados pra ver se eles batem com sua intuição. mas você também, consciente ou inconscientemente, vai prestar atenção em algumas outras coisas -- sobretudo na qualidade da apresentação do relatório. por exemplo se o texto estiver repleto de erros de digitação, se os gráficos estiverem meio quebrados, e as páginas estiverem fora de ordem... bom, isso reduz a sua confiança na qualidade do restante, né? porque se o seu SERVO não deu atenção a esses detalhes, como você vai saber se ele deu atenção às análises em si?
e note, o contrário também é verdade: se o texto estiver bem escrito, os gráficos estiverem bonitos, e tudo parecer em ordem... você vai estar mais propenso a achar que os resultados devem estar corretos, não é mesmo?
esses são exemplos de proxies estéticos: coisas que analisamos pra medir a qualidade de um artefato, mas que não são de fato medidas da qualidade do produto. são atalhos, porque verificar a qualidade/corretude do artefato em si seria tão complexo quanto refazê-lo em primeiro lugar, o que seria contraproducente (no exemplo do funcionário) ou até mesmo inviável (quando a gente está lidando com artefatos que não saberíamos reproduzir)
PARÊNTESES DE EXATAS: um caso clássico da diferença gigantesca entre "verificação" e "cálculo" é a fatoração de primos. se você me der um número enorme tipo 3620133 e me pedir pra fatorar ele em primos, isso é muito mais difícil do que se você me der alguns números (digamos 7887 e 459) e afirmar que esses são os fatores de 3620133 -- nesse caso, verificar se uma resposta está certa é trivial, enquanto obter a resposta é um dos problemas mais difíceis que existem, um problema cuja dificuldade é incerta porém absolutamente necessária para que todo o nosso sistema digital continue funcionando. fecha parênteses
nós aplicamos "proxies estéticos" desse tipo em vários lugares, como por exemplo, quando vamos executar ações na internet: você compraria de um site que estivesse repleto de erros de português e com a formatação toda quebrada? você botaria seus dados pessoais numa página assim? você confiaria numa reportagem de um site desses? (se você for meu pai, a resposta pra todas as perguntas anteriores é "sim claro qual o problema", o que é suficiente pra me deixar MALUCO)
é importante destacar que os "proxies estéticos" são meramente atalhos: é totalmente possível, por exemplo, que um artefato esteja logicamente correto mas o autor seja disléxico, de modo que erros de digitação não são um sinal de desleixo. ou, quem sabe, o contrário: que a apresentação de um site esteja perfeita mas que as informações retratadas sejam absolutamente incorretas. ainda assim, esses proxies nos são úteis, e frequentemente servem como filtros pra sabermos se podemos confiar na legitimidade de um relatório/site/texto/artefato.
...ou, pelo menos, era assim que as coisas funcionavam, até há alguns anos atrás.
Com o advento da Inteligência Artificial, uma ortografia e apresentação decentes não servem mais como "prova de esforço". porque graças a essa invenção demoníaca, foi reduzido a praticamente ZERO o custo de produzir texto que esteja gramaticamente correto e que soe natural, assim como o custo de produzir artefatos visuais (páginas e diagramas e gráficos) que pareçam profissionais. essa não é a primeira vez que avanços tecnológicos rompem com um de nossos proxies estéticos (há séculos atrás, a caligrafia de alguém era também usada pra presumir coisas sobre o escritor1, arte esta que se tornou irrelevante quando começamos a todos escrever em Arial e Calibri), mas -- tal qual um remix do skrillex --, nossa fatia particular da história humana se propõe a repetir o passado em ritmo mais acelerado.
então bem-vindo ao século 21: um colega de trabalho te manda um relatório, e a pergunta não é mais "será que ele cometeu algum erro?", mas sim "será que foi ele que escreveu isso?". estar "bonito" e "apresentável" não é mais um sinal de absolutamente nada -- agora até a bosta mais fedida pode cheirar a Chanel (o que não muda sua essência fundamental, que é ser bosta).
mas essa situação é insustentável, pois continuamos precisando de formas de filtrar aquilo que nos aparece pela frente, seja no trabalho ou na vida pessoal. e dessa necessidade surgem os novos proxies: os sinais que dizem que algo foi gerado artificialmente. travessões, "não é X é Y", listas não-numeradas iniciando com palavras em negrito, o tom de fala alegre de alguém que não tem contas a pagar... todos elementos que, há alguns anos, poderiam ser vistos como neutros ou até mesmo como positivos, mas que agora exalam aquele cheiro inconfundível de que a pessoa do outro lado não se deu ao trabalho de escrever nada. e se ela não se deu ao trabalho de escrever, por que você se daria ao trabalho de ler?
quando a bosta começa a cheirar a Chanel, o cheiro de Chanel nos remete à bosta.
há inocentes mortos nesse conflito? sem dúvida -- pessoas que sempre escreveram com travessão e agora estão sendo atacadas injustamente, confundidas com robôs (o que é ainda pior se você pensar que o robô só escreve com travessão porque ele está copiando os trejeitos dessas pessoas. é uma injustiça dupla2). mas é assim que proxies funcionam: eles são atalhos, filtros imperfeitos, sinais superficiais de uma essência inconhecível; a injustiça é o preço que pagamos pra conseguir sobreviver numa cultura que produz mais informação a cada segundo do que jamais existiu na história do planeta.
então sim, os velhos proxies se romperam; vida longa aos novos proxies! se você vier com um travessão pra cima de mim prepare-se pra ser ignorado. e vamos aproveitar essa situação enquanto ela durar, porque daqui a pouco os bots começam a inserir erros ortográficos propositalmente e aí fodeu de vez



