livros que eu li em 2025


reflexões curtas sobre os livros que eu li em 2025, em ordem razoavelmente cronológica. como tudo na vida, 90% é meio "meh", então eu destaquei os que mais me impactaram.

em 2025 eu li 22 livros -- o que é basicamente a mesma quantidade de livros que li em 2023 e 2024. bem curioso, considerando que passei boa parte do ano sentindo que estava lendo muito pouco! pra você ver como são as coisas

se tiver curiosidade, meus hábitos de leitura estão mais ou menos descritos no meu post "três dicas pra ler mais", publicado em 2022 (:


edições anteriores:

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>> [livros que eu li em 2021]
>> [livros que eu li em 2022]
>> [livros que eu li em 2023]
>> [livros que eu li em 2024]


Sumário

clique nos títulos pra uma fácil navegação!

  1. O Rio Antes do Rio 💖
  2. 1565: Enquanto o Brasil Nascia
  3. Nos Tempos da Guanabara: 1960-1975
  4. There Is No Antimemetics Division
  5. You Can Negotiate Anything
  6. We Have Always Lived In The Castle
  7. O Hobbit 💖
  8. O Feiticeiro de Terramar
  9. The Coming of Conan the Cimmerian
  10. Uma Princesa de Marte
  11. Ancillary Justice
  12. O Senhor da Luz
  13. Hyperion
  14. Doppelganger
  15. The Mezzanine
  16. Katabasis
  17. A Filha do Rei de Elfland 💖
  18. Everything Is Tuberculosis
  19. Frankenstein
  20. If Anyone Builds It, Everyone Dies
  21. The Scaling Era: An Oral History of AI, 2019–2025
  22. https://neocities.org/site_files/text_editor?filename=blog%2Fbooks2025.html#
  23. Careless People 💖

se tem algum livro que você gostaria de me recomendar, por favor, entre em contato!!
tem uma seção de comentários logo abaixo que não precisa nem de cadastro.
quem sabe a sua recomendação pode mudar a minha vida?


  1. O Rio antes do Rio (Rafael Freitas da Silva, 2024) 💖
  2. entre 2022 e 2023, tive a oportunidade de morar na Espanha durante meu doutorado. viajei pra todas as cidades que consegui, visitei dezenas de museus, e fiz zilhões de passeios guiados -- uma experiência enriquecedora que me deixou craque na história ibérica. foi muito foda! e aí eu voltei pro Brasil e percebi não sabia dizer por que Getúlio Vargas tinha se matado

    movido em iguais partes por vergonha e curiosidade, decidi que queria preencher pouco-a-pouco essas lacunas gigantescas no meu conhecimento sobre a nossa história, um tema que tem percolado pela minha cabeça desde How to Do Nothing da Jenny Odell, um dos meus livros favoritos dos últimos anos. e foi nessa pira que eu encontrei "O Rio antes do Rio".

    "O Rio antes do Rio" conta a história da fundação da cidade do Rio de Janeiro (onde vivo e vivi por toda a minha vida) da perspectiva dos povos originários, tentando reconstruir como seria a vida deles, onde eles estavam distribuídos, como foram as interações deles com os primeiros colonizadores que chegaram, etc. ele se foca bastante no período entre 1500 (chegada dos portugueses) e 1567 (expulsão dos franceses), juntando relatos históricos da época com as descobertas modernas sobre coisas da época.

    o livro é muito bem escrito, sem dúvidas. mas acima de tudo, é um livro extremamente bonito.

    https://neocities.org/site_files/text_editor?filename=blog%2Fbooks2025.html#

    não é um daqueles livros grandes, cheios de figuras, pra se botar na mesa de centro. não é um livro com meia dúzia de páginas de plástico no meio, com fotos em alta resolução. é só um livro extremamente bem-diagramado, bem-organizado, e com ilustrações elegantes em pontos-chave do texto.

    elegante, informativo, eloquente, bem-pesquisado, e pertinente. sério, não tem comparação. é um livro que dá vontade de morder. é um monumento à perfeição e ao carinho essa merda. absolutamente recomendado

  3. 1565: Enquanto o Brasil Nascia (Pedro Doria, 2017)
  4. ...e esse aqui já não é tão bom. em tese ele é um complemento bacana pr'O Rio antes do Rio, considerando que fala sobre a mesma época, mas englobando um contexto político maior (a fundação de São Paulo, estabelecimento do Brasil Colônia, etc). o texto em si também seria um contraste interessante, considerando que apesar do Pedro Doria também ser jornalista (como o Rafael Freitas), ele tem uma pegada meio "professor descolado de história", fazendo detours pra contar causos, curiosidades, etc

    mas infelizmente parece que esse livro foi direto do rascunho pra gráfica: frases que não fazem sentido, parágrafos que claramente são duas versões do mesmo trecho, trechos que estão literalmente duplicados... não faço ideia do que aconteceu no processo de revisão (se aconteceu um processo de revisão), mas a vibe de desleixo que isso passa, combinada com a vibe de "história descolada", me causa uma forte dúvida no conteúdo factual do texto: se o texto foi escrito com tão pouca atenção, o que garante que as informações foram pesquisadas com afinco, e que estão de fato corretas?

    veja, eu gostei da leitura. em particular, adorei o retrato que ele pinta da França Antártica, e de como todo mundo odiava o Villegagnon. mas eu definitivamente não recomendaria esse livro pra alguém que, como eu, não tem o contexto necessário pra diferenciar o que é real do que é exagero histórico

  5. Nos Tempos da Guanabara: 1960-1975 (2015)
  6. comprei esse livro porque eu estava querendo aprender mais sobre o Estado da Guanabara, que existiu entre 1960 e 1975. confesso que li e não absorvi nada. mas as imagens são legais


  7. There Is No Antimemetics Division (qntm, 2020) ⭐
  8. é engraçado como alguns livros ficam perpetuamente associados na nossa memória a lugares específicos... comecei a ler esse livro enquanto estava na recepção de um hospital público, esperando me chamarem pra fazer uma cirurgia, e não consigo separar a experiência de ter lido esse livro da experiência de estar ansioso e sozinho, esperando que o tempo passasse o mais rápido possível numa enfermaria escura e congelante.

    a sinopse é a seguinte. todos sabemos o que são memes: ideias que, por algum motivo, são grudentas e se espalham facilmente pelas mentes humanas. mas pouco falamos dos antimemes -- isto é, ideias que são particularmente escorregadias, difíceis de serem lembradas, como textos matematicamente densos (que afastam qualquer tentativa de concentração) e sonhos (que esquecemos quase que no mesmo instante que acordamos).

    e se esses não fossem os limites dos antimemes? e se existirem ideias tão antimeméticas que são esquecidas quase imediatamente depois que entramos em contato com elas? e se essas ideias tiverem estado por aqui o tempo todo, mas ninguém percebeu?

    é um livro de ficção científica que acompanha o trabalho de pessoas na Divisão de Antimemética de uma instituição governamental secreta. é muito legal, muito legal mesmo. me entregou exatamente o que eu precisava no momento que eu precisava. sei que o livro me marcou quando eu não lembro dos detalhes da história, mas me recordo de imagens muito específicas: um elevador com um estagiário desesperado. uma sala fechada a sete chaves. uma planície com um sol vermelho gigantesco, e trevas negras asfixiantes.

    se você gosta de ficção científica e de ler artigos na wikipédia, este é pra você !

    "Yes," Wheeler says. "Yes. Write this down. It's the first thing you're learning today. Humans can forget anything. It's okay to forget some things, because we are mortal and finite. But some things we have to remember. It's important that we remember. Write to yourself something which will make you remember."

  9. You Can Negotiate Anything (Herb Cohen, 1980)
  10. acho que a coisa mais importante que aprendi nesse livro foi que a melhor forma de comprar um carro é aparentemente se fingir de imbecil e passar por todos os carros da concessionária, fazendo zilhões de perguntas estúpidas pro vendedor. depois de 3 horas, quando o vendedor já estiver exausto e se lamentando por ter perdido o tempo dele com você, este é o momento de você dizer que quer levar um dos carros imediatamente, mas só consegue se ele te der 10% de desconto. a essa altura ele vai pensar: "porra eu fiquei 3 horas com esse cara e ele não vai levar nada? esse preço já é inventado mesmo, vou dar os 10% pra esse cara sair da minha frente e eu não ficar com as mãos abanando". em dezembro comprei um carro e não fiz nada disso. talvez o mundo seja diferente do que o representado neste livro

  11. We Have Always Lived In The Castle (Shirley Jackson, 1962)
  12. esse ano eu e a silvia começamos a tradição de "ler livros juntos em voz alta", e esse foi o primeiro livro que lemos dessa forma: um mistério gótico da mesma autora de "The Haunting of Hill House", que a silvia gostou mas eu não cheguei a ler.

    não sei exatamente como descrever esse livro... é bom, mas ao mesmo tempo é bem triste e pesado. a crueldade de algumas cenas me marcou, é uma visão extremamente cínica do ser humano, mas ao mesmo tempo bem realista... não lembro onde li isso (talvez no Toxoplasma of Rage?), mas o livro me lembrou da frase "não tem nada mais libertador do que maltratar alguém sem se sentir culpado". a alteração do status quo também me pegou desprevenido no final das contas, quase como se o livro inteiro fosse uma backstory pro estado final em que as coisa se encontram... até as bruxas foram crianças um dia... pensamentos...

  13. O Hobbit (J. R. R. Tolkien, 1937) 💖
  14. vamos lá: eu nunca fui fã de Senhor dos Anéis, apesar de já ter tentado ser com bastante afinco (nunca passei da metade do primeiro volume), e a silvia nunca tinha tido nenhum contato com a série, então não sei exatamente por que decidimos ler O Hobbit juntos em voz alta. mas, puta merda, a escolha foi certeira -- que livro bom de se ler em voz alta!!! os diálogos são divertidos, dá pra fazer várias vozes diferentes, a prosa é repleta de jogos de palavras agradáveis ("onde estão Dwalin Balin Kili Fili Dori Nori Ori Oin Gloin Bifur Bofur Bombur e Thorin..."). aparentemente o Tolkien escreveu o livro pra ler pro filho dele na hora de dormir, e se isso for verdade, então parabéns pro Sr. Jorge Tolkien porque o livro é 100% perfeito pra isso.

    entramos com desconfiança e saímos convertidos. pra você ter uma noção a silvia gostou tanto que ela fez personagens de crochê dos personagens principais, comprou uma bolsa de senhor dos anéis, adquiriu os outros livros da série, e começou a ler eles quase que imediatamente (ela está no final do segundo livro). um anel para todos governar...

    cara sério o livro é muito engraçado. o Bilbo é um preguiçoso que só pensa em comida, o Thorin é um filho da puta traiçoeiro do cacete, e o Gandalf é um velho safado que some nos piores momentos. definitivamente recomendado.

  15. O Feiticeiro de Terramar (Ursula K. Le Guin, 1968)
  16. outro livro que lemos em voz alta.

    a silvia não tinha lido o livro antes (e acho que nada da Ursula), mas eu sim, e acabei tendo a mesma sensação que me lembro de ter tido quando li da primeira vez: é meio... chato? eu gosto da Ursula, gosto do Ged, gosto de ser um coming-of-age em que o protagonista não é violento e em que ninguém morre... mas puta merda, parece que não acontece nada nesse livro! essa sensação fica ainda mais evidente quando se lê em voz alta, porque as descrições são meio arrastadas e existem pouquíssimos diálogos, então pular da maestria de O Hobbit pra cá chega a ser um banho de água fria.

    pra você ter uma noção de quão boa foi a experiência de ler O Hobbit, eu fiz vozes tão icônicas pros personagens que enquanto eu li O Feiticeiro de Terramar, a silvia ficava me cutucando: "não pode usar essa voz pra esse personagem, essa é a voz do bilbo", ou "esse personagem ficou idoso, tem que mudar a voz dele, faz a voz do gandalf".

    parando pra pensar agora, acho que O Feiticeiro de Terramar é o meu 2º livro menos favorito da Ursula. meu ranking impromptu:

    1. Os Despossuídos
    2. A Curva do Sonho
    3. As Tumbas de Atuan
    4. O Feiticeiro de Terramar
    5. A Mão Esquerda da Escuridão

    ainda não li The Word for World is Forest. quero ler Os Despossuídos de novo.

  17. The Coming of Conan the Cimmerian (Robert E. Howard, 2002)
  18. veja, eu sou um cara que gosta de jogar RPG e de ler sobre RPG, e é basicamente impossível fazer essas duas coisas sem se deparar com o nome de Conan o Bárbaro a cada 30 minutos. a histórias do Conan codificaram uma série de tropes sobre "aventureiros solucionando problemas com violência em um mundo hostil e mágico", e eu não tinha lido nada do Conan (nem visto os filmes). então decidi corrigir isso!

    "The Coming of Conan the Cimmerian" é uma coletânea, publicada em 2002, de contos que foram escritos entre 1932 e 1933 por Robert E. Howard, criador do Conan. antes de ler, eu esperava encontrar contos de aventura genéricos, profundamente racistas e sexistas, que definitivamente não sobreviveriam ao teste do tempo; e tendo lido, posso dizer que eu estava 70% certo: eles realmente são racistas e sexistas, mas as aventuras às vezes até que não são tão genéricas assim.

    alguns contos são muito legais e refrescantes (God in the Bowl, The Scarlet Citadel, The Phoenix on the Sword); outros são muito parecidos entre si e moralmente intragáveis (Black Colossus, Iron Shadows in the Moon, The Pool of the Black One). é a definição de hit or miss, sendo que tem mais miss do que hit.

    acho que o que me pega é que mesmo os contos que são muito ruins e ofensivos tem uma ou duas cenas extremamente memoráveis, como o ritual lésbico de invocação do morcego gigante em The Vale of Lost Women. então você fica querendo ler eles pensando "tá Robert eu já entendi que a gostosa tem membros da cor de marfim e lábios doces como mel, quando é que vai chegar na parte lega- opa um gorila super-inteligente que matou seu dono e se apropriou da sua mansão mágica! agora sim". pra colher inspiração pra RPG isso aqui é uma beleza

    por algum motivo fiz uma review de todos os contos do livro, que você pode encontrar aqui. se você tiver curiosidade de ler algo do Conan, recomendo o primeiro conto do livro, The Phoenix on the Sword, que você pode ler gratuitamente aqui. se curtir, leia os outros! mas se prepare psicologicamente

  19. Uma Princesa de Marte (Edgar Rice Burroughs, 1912)
  20. falando em racismo, aqui está uma história de um caubói americano que viveu entre os indígenas e viu como eles são guerreiros nobres e sábios, exceto que os indígenas são extraterrestres e não estamos na América, mas em Marte (o protagonista ainda é um caubói, não se preocupe).

    fui ler esse livro por dois simples motivos: 1) também é um livro de aventura diretamente mencionado no Apêndice N, e 2) a capa da edição lançada pela Aleph é bonita que dói. honestamente, agora que se passaram alguns meses, confesso que não lembro de quase nada: o protagonista salta e dá socos, existem macacos albinos com metralhadoras (?), e ele salva uma gostosa pq é óbvio que sim. acho que isso é tudo que tenho pra dizer sobre esse livro

  21. O Senhor da Luz (Roger Zelazny, 1967) ⭐
  22. comprei esse livro na Bienal sem saber muita coisa a respeito dele, em grande parte porque a capa era bonita e porque reconheci o nome como o autor do livro mencionado nesse vídeo. ah e porque se eu comprasse mais um livro na loja da Aleph, eu levava um pôster de Murderbot Diaries pra casa

    a sinopse é a seguinte: num planeta distante do cosmos, vive uma civilização humana muito parecida com a nossa, mas meio mágica. por exemplo, as pessoas realmente reencarnam: toda vez que alguém vai morrer, a pessoa é levada pra uma sala sagrada onde um sacerdote analisa a vida da pessoa e decide se o karma dela é adequado. caso seja, a consciência da pessoa é transmigrada pra um novo corpo, onde ela pode continuar vivendo; caso contrário, sua jornada se encerra ali. como sugerido pela palavra "karma", todo esse esquema de reencarnação é apresentado com uma roupagem bem hindu -- exceto que... é real. não apenas a reencarnação é real, mas os deuses hindus também são, assim como os demônios, as cidades sagradas, e tudo o mais.

    isso pode soar um livro de fantasia normal, à la Percy Jackson ou American Gods. só que tem algo muito estranho porque estamos inegavelmente em outro planeta, e -- plot twist das primeiras 5 páginas -- não é um livro de fantasia, mas sim de ficção científica. e parte da graça é, ao longo do livro, descobrindo o que caralhos está acontecendo nesse planeta. gosto bastante de livros assim, que se apresentam quase como mistérios que vão sendo descobertos ao longo da leitura (sempre lembro do Anathem quando falo disso, também de ficção científica).

    extremamente imaginativo, leitura extremamente agradável, tradução extremamente competente. eu jogaria um RPG nesse universo, fácil

  23. Ancillary Justice (Ann Leckie, 2013)
  24. também comprei na bienal e comecei a ler meio hypado, porque eu queria ler esse livro fazia muito tempo, mas literalmente li 3 capítulos e não tankei. prefiro só reler A Mão Esquerda da Escuridão, o 5º melhor livro da Ursula K Le Guin

  25. Hyperion (Dan Simmons, 1989)
  26. também também comprei no estante da Aleph na bienal, e também acabei abandonando depois de alguns capítulos, apesar de que esse aqui eu acho que vou voltar a ler (diferente do Ancillary Justice, que eu não curti mesmo)

  27. Doppelganger (Naomi Klein, 2024)⭐
  28. encontrei esse livro por recomendação do Matheus Sodré, cujo canal no youtube eu sigo faz algum tempo e recomendo fortemente (especialmente se você está aqui, lendo uma frase escondida no meio de um texto longo em um blog obscuro perdido na internet)

    o livro é uma dissertação (no sentido mais amplo da palavra) a respeito do conspiracionismo, negacionismo climático e anti-cientificismo dos dias atuais. como chegamos a esse ponto? no que estamos nos tornando? quais são as consequências disso? é bastante denso em ideias, mas também bastante claro. alguns pontos que me marcaram:

    como a obsessão da nossa sociedade atual com "fitness" e "wellness" não está totalmente desatrelada do fascismo remastered:

    There are deep and healthy pleasures to be found in exercise, as there are in other aspects of wellness. For many of the evangelists in these worlds, however, both fitness and diet are intensely value-laden endeavors. Achieving goals means setting rigorous targets and displaying relentless discipline to meet them (a.k.a. “putting in the work”). That’s how you reach your idealized body double. Which is all fine if it stays there. But the trouble is, it often doesn’t. [...] When body mania sets in, the fit self may well not be satisfied with crushing its own unfit self; it may look for other targets, its self-hatred seeping out and projecting itself onto other people’s less fit, less conventionally able bodies.

    como a esquerda, em certos pontos, ficou reativa demais e passou a se definir simplesmente como uma oposição ao que a direita diz:

    Like most of us, I don’t know where the Covid-19 virus originated—whether a wet market in Wuhan, or the Wuhan Institute of Virology’s Biosafety Level 4 lab, or somewhere else entirely. But I do realize, in retrospect, that I was too quick to take the official story—that it came from a wet market where wild animals were sold—at face value. If I’m honest, I accepted it because it served my own motivated reasoning and reinforced my worldview: the pandemic was a little less frightening to me if it was yet another example of humans overstressing nature and getting bitten on the ass for it. Then, as time went on, and the “lab leak theory” became a key talking point from people like [Naomi] Wolf and [Steve] Bannon in the Mirror World, where it was mixed with baseless claims about bioweapons, along with plenty of anti-Asian racism, there seemed to be further reason not to take another look at the facts. Even though more and more facts and documents were piling up that supported a serious consideration of the lab leak hypothesis, most liberals and leftists didn’t bother looking for months because we didn’t want to be like them, in the same way that I didn’t want to be like her. In an odd way, their over-the-top conspiracies fed our overcredulity; their “question everything” led to many of us not questioning enough.

    como as redes sociais, com seus likes e retweets e mensagens, são incapazes de conter a multitude do ser humano -- e ao invés de nós fazermos a máquina subir ao nosso nível, nós descemos ao nível da máquina:

    When a human being becomes a set of data on a website like Facebook, he or she is reduced. Everything shrinks. Individual character. Friendships. Language. Sensibility. In a way it’s a transcendent experience: we lose our bodies, our messy feelings, our desires, our fears.” But we aren’t transcending to something higher, just less ourselves. And a flattened, reduced version of ourselves is easier to confuse with a flattened, reduced version of someone else. [...] Good branding is an exercise in discipline and repetition. It means knowing exactly where you are headed all the time—which is essentially in concentric circles.

    gostei bastante.

  29. The Mezzanine (Nicholas Baker, 1988)
  30. um livro curto, que consiste inteiramente em um monólogo mental do protagonista durante o fim do seu horário de almoço de um dia de trabalho normal, enquanto ele sobe uma escada rolante entre o térreo de um prédio (onde ele estava almoçando) e o mezanino (onde ele trabalha). é um conjunto de reflexões extremamente densas e sérias sobre as coisas mais banais possíveis

    por exemplo, sobre quais são exatamente os limites do "horário de almoço":

    A small, perhaps not very interesting question has troubled me occasionally: Is a lunch hour defined as beginning just as you enter the men’s room on the way to lunch, or just as you exit it? At the end of an earlier chapter, I instinctively said, “I stepped away toward the men’s room, and the lunch hour beyond”; and, right or wrong, this was how I saw the transition: the stop at the men’s room was of a piece with the morning’s work, a chore like the other business chores I was responsible for, and therefore, though it obviously didn’t help the company to make more money, it was part of my job in a way that the full hour of sunlight and sidewalks and pure volition was not. What that meant was that my company was as a rule paying me to make six visits a day to the men’s room—three in the morning, and three in the afternoon: my work was bounded and segmented by stops in this tiled decompression chamber, in which I adjusted my tie, made sure that my shirt was tucked in, cleared my throat, washed the newsprint from my hands, and urinated onto a cake of strawberry deodorant resting in one of four wall-mounted porcelain gargoyles.

    ou as desvantagens de pegar o elevador, ao invés da escada rolante:

    Such moments of privacy were impossible on escalators, but even so I preferred the fairly unusual distinction of reaching my office via escalator over being forced to participate day after day in all the little ceremonies of elevator behavior—raising your eyes with everyone in the car to watch the floor numbers change; assuming the responsibility of holding the “Door Open” button or the rubber door-sensor with a pious expression as people boarded; hearing the tail ends of conversations suddenly become conspiratorial and arch because they are so completely overheard in the press of the car, though they were perfectly commonplace out in the noise of the lobby; interrupting the light beam between the open doors with your hand if nobody gets off or on at a certain floor, to simulate a passing passenger, shortening the wait time; change-jingling; greeting strangers with a voiceless lip-pop made by opening your mouth and then closing it.

    é um livro bastante único, que me lembrou dos monólogos do Tim Rogers sobre jaquetas de couro, óculos escuros ou "sobre aquela vez em 1997 quando eu estava em Indianápolis, na universidade, e eu vi um tênis All Star pela primeira vez". ou seja, é um humor observacional fascinante e divertido, mas também extremamente cansativo. não terminei de ler mas gostei!

  31. Katabasis (R. F. Kuang, 2025)
  32. num mundo em que "magia" é apenas uma área acadêmica como qualquer outra, dois alunos de doutorado recebem a terrível notícia de que seu orientador morreu. sem muito pra onde correr, eles vão ao inferno buscar sua alma -- pra que possam defender a tese e finalmente receberem seus diplomas.

    o que essa premissa tem de genial, o livro tem de chato; não se deixe enganar, Katabasis é uma história de amor entre uma menina cheia de problemas e um garoto misterioso que ama ela mas possui segredos... e tudo escrito da forma mais "fanfic de adolescente" possível. tem uma cena logo nos primeiros capítulos em que os dois estão dormindo juntos num saco de dormir ("porque está frio... e precisamos nos aquecer... certo?") e a protagonista, Alice, acorda com um incômodo na barriga. sonolenta, ela se remexe, até que percebe que é o pênis ereto de seu rival/amigo/amor platônico Peter !

    Algo duro pressionou sua coxa.

    — Meu Deus!

    Ela se afastou depressa, arrancando o cobertor de cima dos dois.

    Peter acordou assustado.

    — O que foi? O que foi? — Então olhou para baixo e gritou: — Merda, desculpa…

    — Tudo bem.

    As bochechas de Alice queimavam. Queria se abanar, mas isso a faria parecer uma dama vitoriana apavorada, então apenas pressionou a palma das mãos nas bochechas. Uma onda de vertigem passou por suas têmporas. Peter estava sentado com as mãos cobrindo o colo, o que só piorava as coisas, porque chamava atenção para o fato, e os dois não tinham mais como evitar comentar o ocorrido.

    — Está tudo bem, só, por favor…

    — Não é uma coisa que a gente controla — justificou Peter. — Quer dizer, os homens. Às vezes acontece, quando a gente está dormindo… Eu não queria… Quer dizer, sinto muito, de verdade…

    Alice arrastou as mãos pelo rosto e desejou que a pele de seu crânio derretesse.

    — Não se preocupa com isso.

    tipo, não me incomodo que tenha romance -- pelo contrário, eu adoro romance! --, mas é só que é um romance muito sessão da tarde. é realmente um desastre em etapas: não só os personagens tem um relacionamento entediante e arcos totalmente previsíveis, como a tradução em si é incrivelmente forçada (ninguém fala "Por Deus!"!!!!). se eu engoli esse livro de cabo a rabo na velocidade cinco, é mérito único e exclusivo da habilidade da R. F. Kuang de construir pacing e worldbuilding. porque em termos de personagem o bagulho aqui é tenso.

    nos seus melhores momentos, Katabasis contém reflexões importantes sobre os sofrimentos extremamente específicos da pós-graduação, a ponto de ficar óbvio que a autora tem uma relação de amor e ódio na Academia (em Babel parecia só ódio). nos seus piores momentos, Katabasis é esse besteirol que você viu aí em cima

    não recomendo. fui ler porque amei Babel e saí totalmente decepcionado, o que é uma tristeza

  33. A Filha do Rei de Elfland (Lorde Dunsany, 1924) 💖
  34. "A Filha do Rei de Elfland" (um título estranho, mas não tão estranho quanto o original "The King of Elfland's Daughter") é um livro de fantasia que conheci por conta do Apêndice N de Dolmenwood, cenário de RPG lançado nos últimos anos que rapidamente se tornou um dos meus favoritos.

    à primeira vista, o livro é só uma história genérica sobre um homem que se apaixona pela "princesa dos Elfos", e enfrenta desafios mirabolantes pra conseguir casar com ela. exceto que é um livro de mil novecentos e vinte e quatro, 13 anos antes de Tolkien publicar qualquer coisa sobre a Terra Média (de fato, esse livro serviu de inspiração pra Tolkien e outros autores de fantasia do início do século XX), e o pen name do autor é LORDE DUNSANY (se esse for seu verdadeiro nome??)

    quando você lê um negócio antigo e influente desses, o risco que se corre é sempre o mesmo: perceber que (1) você meio que já conhece a história toda sem nunca ter lido, de tanto que outras pessoas copiaram os elementos dela, e (2) a história em si não é tão boa assim, e as pessoas só gostaram na época porque era a única coisa que tinha disponível.

    é com muito prazer que informo: não é esse o caso aqui. pra um livro de fantasia de 1924 sobre elfos e fadas, "A Filha do Rei de Elfland" é incrivelmente... original? e agradável de se ler?? li esse em voz alta com a Silvia, e posso dizer sem sombra de dúvidas que foi quase tão agradável de se ler quanto O Hobbit. o capítulo VII ("A vinda do troll"), em particular, foi provavelmente a sequência de palavras mais divertida que eu pude pronunciar no ano de 2025

    Quando o troll chegou à fronteira do crepúsculo, ele saltou e a atravessou com agilidade; mas emergiu cautelosamente nos campos que conhecemos, pois tinha medo de cães. Saindo em silêncio daquelas densas massas de crepúsculo, ele entrou tão suavemente nos nossos campos que nenhum olho o veria a menos que estivesse olhando para o local em que ele apareceu. Ali ele parou por alguns instantes, olhando para a esquerda e para a direita; e, não vendo nenhum cão, saiu da barreira do crepúsculo. Esse troll nunca tinha estado nos campos que conhecemos, mas sabia muito bem como evitar cães, pois o medo de cães é tão profundo e universal entre todos que são menos que o Homem que parece ter ultrapassado nossas fronteiras e sido sentido em Elfland.

    Não tinha se afastado muito de Elfland quando se encontrou com uma lebre, que estava deitada em um canteiro confortável de grama, na qual pretendia passar o tempo até ter coisas das quais cuidar.

    Quando a lebre macho viu o troll, sentou-se ali, sem nenhum movimento e sem nenhuma expressão nos olhos, e não fez nada além de pensar.

    Quando o troll viu a lebre, saltou para mais perto, se deitou diante dela nos ranúnculos e lhe perguntou o caminho para os redutos dos homens. E a lebre ficou pensando.

    — Coisa destes campos — repetiu o troll —, onde ficam os redutos dos homens?

    A lebre se levantou e caminhou em direção ao troll, o que a fez parecer muito ridícula, pois não tinha a mesma graça ao andar do que quando corria ou pulava, e ficava muito mais baixa na frente do que atrás. Ela enfiou o nariz na cara do troll e torceu os bigodes imprudentes.

    — Diga-me qual é o caminho — disse o troll.

    Quando a lebre percebeu que ele não tinha cheiro de cão, se contentou em deixar o troll interrogá-la. Mas ela não entendia a língua de Elfland, então ficou quieta de novo e pensou enquanto o troll falava.

    extremamente recomendado se você gosta de fantasia! pra sempre lembraremos dos campos que conhecemos...

  35. Everything Is Tuberculosis (John Green, 2025)
  36. sigo o trabalho dos irmãos Kratt há anos mas nunca tive vontade de ler as coisas YA do John Green; quando soube que ele tinha escrito um livro sobre tuberculose, pensei: "é agora". eu não sabia nada de tuberculose até ler esse livro, e agora sei alguns fatos isolados sobre a doença; nesse sentido, funcionou como um artigo da wikipédia. tem uma história subjacente sobre as visitas do John Green à Serra Leoa e sobre as condições terríveis que as pessoas de lá tem de enfrentar quando contraem a doença... mas (e eu digo isso sem nenhum orgulho), sendo bem honesto, a parte que mais vai ficar comigo provavelmente é o fato de que Arthur Conan Doyle começou sua carreira investigando sobre tuberculose. e a rivalidade entre Koch e Pasteur. e como os padrões de beleza europeus foram influenciados pela tuberculose

    Patients with active tuberculosis typically become pale and thin with rosy cheeks and wide sunken eyes due to the low blood oxygenation and fevers that often accompany the disease, and these all became signals of beauty and value in Europe and the United States. Henry David Thoreau wrote in his journal, “Disease and decay are often beautiful—like the pearly tear of the shellfish or the hectic glow of consumption.”

    e se isso não é bloodborne o suficiente, isso aqui é muito dark souls (ou OSR):

    In the 1850s, a young man named John was living in New Jersey, working as a hatmaker, when he started coughing up blood. John visited the doctor and learned that, indeed, he had consumption (tuberculosis). According to the prevailing wisdom of the time, his only real chance of survival was to head West. The American West has long been associated with escape and freedom and last hopes. “West is where we all plan to go some day,” Robert Penn Warren wrote in All the King’s Men. “It is where you go when the land gives out and the old-field pines encroach. It is where you go when you get the letter saying: Flee, all is discovered.” And it is where consumptives went to extend their lives.

    recomendado se você gosta de ler artigos da wikipédia!

  37. Frankenstein: Annotated for Scientists, Engineers, and Creators of All Kinds (Mary Shelley, 1818, 2017) ⭐
  38. ahhhh... eis.

    fui ler esse livro por conta do filme, e porque minha amiga que recomendou Katabasis estava lendo Frankenstein, e porque eu lembrei que há alguns meses atrás eu tinha encontrado essa versão de 2018 do livro, com anotações "pra cientistas, engenheiros e criadores de todos os tipos". e eu tenho uma política pessoal que é mais ou menos a seguinte: se você vê algo sendo mencionado uma vez, ignore; se por algum motivo é mencionado duas vezes em locais diferentes, fique atento; se você encontra uma terceira menção que não tem nada a ver com as duas primeiras, aceite: é o Destino te orientando. método Baader-Meinhof de leitura

    tenho várias coisas a comentar sobre esse livro. primeiro: fiquei surpreso como 99% de todos os elementos que a cultura popular associa a "Frankenstein" estão diferentes no livro ou até mesmo completamente ausentes. não tem eletricidade, não tem castelo, não tem aldeões com forquilhas, não tem assistente corcunda... mais chocante, talvez, seja o fato de que A Criatura não é nem um pouco burra -- muito pelo contrário, ela é extremamente inteligente, conseguindo aprender a falar e discutir sobre filosofia em poucos meses, apenas ouvindo os outros falarem (qualquer semelhança com IA é mera coincidência). em outras palavras: lembra do Frank da Turma do Penadinho, que vivia perdendo o cérebro e agindo de forma estúpida? pois parece que ele está tão próximo da criatura de Shelley quanto o Anjinho está dos anjos biblicamente acurados

    quanto à edição em si: não é nada demais, infelizmente. achei que a leitura fosse ser aprimorada por comentários abordando o contexto de quando a obra foi publicada, das discussões que vem sendo tidas sobre o texto nos últimos dois séculos, e etc, mas na prática os comentários são tipo:

    "Eu não aguento mais isso", Viktor disse, com lágrimas nos olhos.[48]
    --------
    [48]: Neste trecho, Viktor diz que não aguenta mais isso, demonstrando uma emoção que pode ser entendida como uma mistura de medo e raiva. O filósofo francês Jean Jacques Rousseau (1712-1778), em "Émile", afirma que medo e raiva são emoções negativas, que o ser humano evita sentir. - David James

    (estou exagerando menos do que você imagina.)

    mas assim, achei legal ter os comentários porque mesmo eles sendo ruins, sinto que me ajudaram a engajar melhor com o texto, e a refletir mais sobre as coisas da história (talvez por eles serem comentários ruins -- uma versão selvagem da Cunningham's Law?). algumas das minhas anotações enquanto lia:

    No filme, o Victor teve uma infância difícil, marcada pela morte da mãe e pelo rígido tratamento do pai, que preferia o irmão mais novo dele (o William). No livro, acho essa parte bem mais interessante: a infância do Victor é literalmente descrita como "a mais feliz possível", com a morte da mãe sendo basicamente o único evento ruim. O filme parece subscrever à ideia de "origem de super vilão" em que se uma pessoa realiza coisas cruéis, ela sofreu grandes traumas na infância. É meio freudiano nesse aspecto. Mas perigoso também, porque corre o risco de alguém ver e pensar "eu não tive uma infância difícil, logo isso não poderia acontecer comigo". Quando Mary escreve que a infância do Victor foi a melhor possível, acho uma escolha interessante porque de um lado dá a entender que pode acontecer com qualquer um independente do crescimento, mas de outro talvez dê a entender que a infância perfeita de Victor é, de alguma forma, a responsável pelas atitudes que ele tomou. Talvez ter os próprios desejos saciados a todo momento tenha permitido que ele tenha se tornado tão egocêntrico?

    É muito fácil empatizar com A Criatura e xingar o Viktor como um egocêntrico babaca que botou um filho no mundo e fugiu na hora de criar. Mas se uma IA que eu treinei chegasse pra mim falando igual Machado de Assis e matasse meu irmão de 6 anos, eu iria reagir de forma diferente? Nem fudendo

    A criatura desenvolveu uma relação parassocial com os moradores da cabana. O análogo moderno seria uma IA que cresce escondida num servidor de Discord furry

    e falando em cientistas egocêntricos criando IAs que destroem a ordem natural das coisas...

  39. If Anyone Builds It, Everyone Dies (Yudkowsky and Soares 2025)
  40. ok vamos lá. você já deve ter visto por aí as afirmações públicas, cada vez mais frequentes, de que "as IAs estão ficando muito inteligentes muito rápido, e se não tomarmos cuidado, vamos acabar criando IAs superinteligentes que podem destruir o mundo" -- em outras palavras, o discurso "AI doomer". e você provavelmente já viu os contra-argumentos (normalmente de pessoas alinhadas à esquerda), que resumem isso tudo a uma balela total, uma publicidade bizarra feita por CEOs de big techs cujo real significado é: "meu produto é tão bom que vai destruir o mundo. vai ficar de fora dessa? compre nossas ações o mais rápido possível".

    e eu entendo isso, e concordo 100% que quando os CEOs dão entrevista falando sobre o fim do mundo iminente, eles estão em grande parte exagerando pra atrair mais investimento. mas ao mesmo tempo: as duas coisas não podem ser verdade?

    "If Anyone Builds It, Everyone Dies" é um livro que argumenta, com bastante detalhe, por que o surgimento acidental de uma superinteligência artificial é não apenas um evento muito plausível, como também uma ameaça que deve ser levada a sério -- como a guerra nuclear do séc. XX, que culminou em tratados de não-proliferação. entrei no livro com um pé atrás (não tenho nenhum carinho pelo racionalismo bizarro do Yudkowsky), mas confesso que saí convertido. realmente me convenceram de que a pesquisa em IA deveria ser pausada globalmente e repensada pra prosseguirmos com mais cautela.

    não acho que esses modelos de IA vão se tornar "sencientes". mas -- e o livro toca nesse ponto --, esses modelos não precisam adquirir senciência pra serem perigosos. basta que eles sejam (1) escorregadios (difíceis de conter) e (2) queiram se proliferar. pense num vírus de computador: ele precisa ser consciente pra fazer um estrago? claro que não. agora pense num vírus de computador que seja movido por uma das melhores LLMs que temos hoje, cujas capacidades já envolvem uma competência absurda em cybersegurança e programação. é tão absurdo assim pensar que um vírus desse tipo seria extremamente perigoso, podendo derrubar completamente a nossa infraestrutura digital? ou, pior, se infiltrar na infraestrutura de maneira secreta e alterá-la pra outros fins -- não necessariamente auto-impostos?

    pra ser claro: existem vários cenários nesse livro que eu acho meio toscos e exagerados, principalmente os relacionados a "paperclip maximizers". mas as noções de que não entendemos como esses sistemas funcionam e que eles estão apresentando comportamentos cada vez mais difíceis de entender e conter, me acenderam um alerta enorme. talvez isso seja mais palpável pra mim porque trabalho com computação e consigo ver os avanços brutais que esses modelos tiveram no último ano... mas de todas as maneiras, fui de NO FEAR pra 1 FEAR.

    um outro comentário: é meio estranho pra mim ver a "esquerda", tão anti-big tech, abandonar completamente essa bandeira de que IA é uma tecnologia perigosa que deveria ser regulamentada. só consigo pensar no quote de "Doppelganger" da Naomi Klein que eu botei um pouco mais acima: como os dois lados do espectro político parecem engajados num jogo de soma zero em que, quando um lado se define a favor de algo, o outro lado obrigatoriamente se torna contra aquilo -- mesmo quando isso não faz o menor sentido.

    é bizarro porque existe uma narrativa praticamente pronta pra esquerda se mobilizar contra o possível surgimento de super-inteligências artificiais: é uma história clássica de arrogância e mesquinharia, como Chernobyl, Titanic, e muitas outras. os CEOs das big techs falam publicamente que estão com medo de bater o carro ao mesmo tempo que enfiam o pé no acelerador, torcendo pra linha de chegada estar razoavelmente distante do precipício.

    em resumo: você confiaria em Elon Musk pra desenvolver a bomba atômica? se não, por que deixamos ele treinar modelos de IA cada vez maiores?

    acho que tem um outro ponto aí que é que mobilizar-se contra o treinamento de modelos de IA seria reconhecer que esses modelos estão ficando cada vez mais capazes, postura que ""a esquerda"" se recusa a tomar (como eu detesto falar "a esquerda"). até pessoas bem-entendidas do assunto, como o Cory Doctorow que gosto bastante, continuam descrevendo os últimos lançamentos de IA de um jeito meio condescendente:

    [About] "AI Safety" nonsense, that purports to concern itself with preventing an AI from attaining sentience and turning us all into paperclips. First of all, this is facially absurd. Throwing more words and GPUs into the word-guessing program won't make it sentient. That's like saying, "Well, we keep breeding these horses to run faster and faster, so it's only a matter of time until one of our mares gives birth to a locomotive." A human mind is not a word-guessing program with a lot of extra words.
    -- Pluralistic: The Reverse-Centaur’s Guide to Criticizing AI (05 Dec 2025)

    o que eu acho meio míope.

    recomendo o livro? sei lá. se você tem interesse em IA e uma tolerância alta a thought experiments, vai fundo. mas honestamente não sei o quão convincente vai ser se você não é da área e não tem o contexto diário de ver esses modelos fazendo coisas cada vez mais mirabolantes toda vez que sai um update

    alguns quotes:

    "Training an AI to predict what friendly people say need not make it friendly, just like an actor who learns to mimic all the individual drunks in a tavern doesn’t end up drunk."

    "The way humanity finally got to the level of ChatGPT was not by finally comprehending intelligence well enough to craft an intelligent mind. Instead, computers became powerful enough that AIs can be churned out by [algorithmic training], without any human needing to understand the cognitions that grow inside. Which is to say: Engineers failed at crafting AI, but eventually succeeded in growing it."

    "When it comes to AI, the challenge humanity is facing is not surmountable with anything like humanity’s current level of knowledge and skill. It isn’t close. Attempting to solve a problem like that, with the lives of everyone on Earth at stake, would be an insane and stupid gamble that NOBODY SHOULD BE ALLOWED TO TRY."

    ler esse livro me fez ficar pensando em como chegamos até aqui...

  41. The Scaling Era: An Oral History of AI, 2019-2025 (Dwarkesh Patel, 2025)
  42. ...o que me levou a ler "The Scaling Era", escrito por Dwarkesh Patel -- um indiano de 25 anos que ficou famoso por conta de um podcast no YouTube em que ele entrevista pessoas importantes, principalmente no mundo de IA. meio que um Lex Fridman menos desagradável. ele tem entrevistas com o Andrej Karpathy (ex-diretor de IA da Tesla), Ilya Sutskever (ex-cientista chefe da OpenAI), e é claro, o Richard Sutton -- pai da área de Reinforcement Learning, que basicamente deu na cabeça do Patel com uma bengala e falou pra ele que LLMs são uma merda e que não vão levar a super-inteligência coisa nenhuma

    esse livro é basicamente uma compilação das entrevistas do Dwarkesh Patel, mas cortadas e editadas pra criar uma história coesa de como as IAs de hoje funcionam, do que elas são capazes, e de como chegamos até aqui. o resultado final é uma colcha de retalhos extremamente porca que não me parece ser útil pra nenhum público específico. se você não entende do assunto, não vai ser aqui que vai entender, considerando que as entrevistas são com cientistas extremamente técnicos que costumam usar múltiplos jargões pra mesma coisa; e se você já entende do assunto, por que ler o livro e não assistir às entrevistas em si, considerando que elas entram muito mais no detalhe sobre as ideias de cada entrevistado?

    talvez a única coisa que esse livro tenha me trazido de interessante seja essa citação do Ilya Sutskever, que rompeu múltiplos neurônios no meu cérebro enquanto eu lia:

    ILYA SUTSKEVER
    The question of what I’ll be doing or others will be doing after [superintelligence] is very tricky. Where will people find meaning? But that’s a question AI could help us with. I imagine we will be able to become more enlightened because we interact with a [superintelligence]. It will help us see the world more correctly and become better on the inside as a result of interacting with it. Imagine talking to the best meditation teacher in history. That will be a helpful thing.

    o cara foi uma das 3 mentes trabalhando na AlexNet em 2012, modelo de IA amplamente entendido como "o início da revolução de deep learning". ele trabalhou no AlphaGo. ele trabalhou no Tensorflow. ele co-fundou a OpenAI, e liderou o desenvolvimento de muitas das versões iniciais do GPT. esse é um dos caras mais influentes no campo da inteligência artificial, um cientista renomado que possivelmente vai estar diretamente envolvido no surgimento de super-inteligências artificiais... e quando perguntado "o que vai acontecer com a humanidade depois do surgimento de uma super-inteligência?", a resposta dele é:

    "sei la mano, baixa o headspace aí filhão." vai tomar no cu, não é possível essa porra. apertem os pintos o ciloto sumiu

  43. Careless People (Sarah Wynn-Williams, 2025) 💖
  44. o que nos leva ao último livro que eu li em 2025: Careless People, da Sarah Wynn-Williams.

    Sarah Wynn-Williams foi a diretora global de public policy do Facebook de 2011 a 2017. o cargo é meio abstrato mas basicamente ela era a pessoa responsável por intermediar conversas entre o Facebook e os governos ao redor do mundo -- basicamente uma diplomata corporativa (o que faz sentido, porque antes de entrar no Facebook ela era diplomata da Nova Zelândia na ONU). por conta disso, ela testemunhou de perto como certas decisões foram tomadas durante os anos de ascensão da plataforma, e viu em primeira mão a filosofia por trás da alta-cúpula da empresa, que inclui Mark Zuckerberg e Joel Kaplan.

    em resumo: estão todos completamente descolados da realidade.

    o livro não tem nenhuma grande Revelação, no sentido de que graças à Frances Haugen, já meio que sabíamos que o Facebook fazia isso tudo: colaborar com o genocídio em Myanmar, patrocinar a eleição do Trump, suprimir páginas de agentes políticos contrários à plataforma... mas o livro é extremamente gráfico, permitindo que a gente visualize com precisão o que caralhos eles estavam pensando enquanto cometiam essas atrocidades.

    [As vice president of public policy], Joel [Kaplan] starts hiring a political sales team to push politicians—here and abroad—into becoming advertisers. The idea is, if politicians depend on Facebook to win elections, they’ll be less likely to do anything that’ll harm Facebook. If Facebook is the goose that lays the golden egg, no one wants to kill the goose. Get them hooked on those golden eggs. Also, unlike Marne, Joel wants the policy team to generate revenue. The way he sees it, Facebook is a business and the policy team should be contributing to the bottom line. He doesn’t want to be viewed as a “cost center” internally. Political advertising is a way to change that. And elections are the biggest opportunity. Fresh-faced Harvard grads start moving into the Washington, DC, office to sell ads to politicians and political campaigns.

    [...]

    The result? In Brazil, Facebook’s already facing fines of millions of dollars and court orders to block the platform for violating bans on electoral advertising. In Mexico, Facebook is being investigated for defying restrictions on political ads.

    My disagreements with Joel come to a head when he tells me to establish PACs in other countries. Political action committees, of course, are an American invention that pull together donors to give money to political candidates. [...]

    “We were so late in establishing Facebook’s PAC in the US; I don’t want to make that mistake in other countries,” Joel says insistently. “We need to get moving to establish PACs outside the US. We should have done this a long time—”

    “So, this is awkward,” I cut in. Joel looks puzzled.

    “That’s illegal. Only US citizens can contribute to elections here. That’s true everywhere. Nobody wants foreigners bankrolling their elections.”

    “Really?” Joel looks shocked.

    “Definitely. That’s why even though you regularly invite me to contribute to the Facebook PAC you founded, for me to do so would be illegal as I’m not a citizen.”

    “Well, I was actually meaning the other way,” he says defensively. “Contributions to politicians in other countries. We need to get moving on channeling money to our key allies offshore, you know, our most influential politicians in other countries.”

    “Ah, that would be considered bribery and corruption in most of the countries I’m responsible for,” I say, careful to strike a neutral tone.

    Joel looks crestfallen.

    “Except the dictatorships,” I offer. “They’ll probably take your money.”

    For a minute I worry that he’s seriously considering it.

    eu já detestava o Facebook e o Mark Zuckerberg antes de ler esse livro, mas surpreendentemente, o livro conseguiu me fazer detestá-los mais ainda. recomendo a leitura pra todo mundo que tem uma rede social, pra que você possa ver o tipo de coisa em que eles estão pensando enquanto discutem como vão colapsar nossa sociedade hoje.

    esse é apenas um lado da história, claro. mas considerando todo o resto que sabemos do Zuckerberg e Cia., provavelmente é o lado correto.

    fique com esse trecho de como o Obama dá um esporro tão forte no Zuckerberg que ele despiroca

    We arrive at the Pontifical Catholic University of Peru, where Obama was doing a town hall, one of his last international public events. [...] With Obama soon to be out of office and Mark fresh off chairing APEC’s heads of state, Mark definitely has a little swagger on the way in. The power balance is shifting.

    We’re not allowed to accompany Mark into the meeting. So a few of us are loitering outside when Mark bursts out of the building and strides off even angrier than he was at the start of the trip.

    It’s a walk across the university campus to get back to where our vans are parked. Mark is moving quickly, silently fuming. By the time we crowd back into the van, he’s raging. [...]

    “Fake news, he kept going on about fake news and misinformation,” Mark steams. “He doesn’t get it. He’s got it totally wrong, totally out of proportion. He said that Facebook’s playing a destructive role globally. And I think he actually believes that.”

    Elliot shakes his head sympathetically.

    “‘Not taking it seriously.’ That’s what he said. I’m not taking these threats seriously enough.” Mark quivers, furious. “I told him fake news wasn’t a big thing on Facebook. It’s less than one percent of what’s on the platform. That it wasn’t fake news that swung the election for Trump. And that realistically there’s not an easy solution. I mean, what does he want me to do?”

    Elliot agrees. “I think we’d very quickly run into free speech issues with any action we take.”

    “And you know what Obama’s focused on?” Mark says incredulously. “The next election … already.”

    “They’ve only just lost this one,” Elliot says.

    “Yeah, he said he was ‘warning me’ that we need to make serious changes or things are going to get worse in the next presidential race,” Mark says.

    “Warning me,” he repeats, incensed. Angry that Obama had taken him to task on the role Facebook had played in the election and beyond.

    Mark replays fragments of the conversation as if trying to beat them into submission. He’s blindsided by Obama’s criticism and inflamed, reiterating again and again how Obama’s a lame duck, as if that’s the salve to the wound. But it seems to me that’s what allowed Obama to speak his mind so freely.

    Under his anger, I can tell Mark’s genuinely hurt. I think he likes and respects Obama. He’s also completely unused to frank criticism from anyone more powerful than him. There are so few who fit that description anyway.

    há menos de 24 horas, a ex-conselheira de Segurança Nacional do Trump foi anunciada como nova Presidente e Vice-Chairman da Meta. eles controlam o Facebook, o WhatsApp, o Threads, e o Instagram. como você se sente tendo toda a nossa infraestrutura de comunicação digital, que usamos pra construir consenso e entender o mundo, na mão dessas pessoas? o que você acha que vai acontecer nas próximas eleições?

    soberania digital já.







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